A ilha

Sou da teoria de que tudo quanto é ex-namorada deveria, assim que se configurasse o término do relacionamento, tomar um bote chacoalhante até a ilha deserta mais próxima.

Por ilha deserta entenda-se um pedaço de terra, no meio do nada, cercado por bananas de dinamite por todos os lados.

Pense comigo se isso não seria uma dádiva na vida da sapatão comum.

Porque a sapatão comum está sentada no ônibus, cochilando, voltando de um dia igualmente comum de trabalho. Quando abre os olhos, percebe que existe uma mulher igualzinha à sua ex-namorada no banco da frente. Caso a ex-namorada tivesse rumado a uma ilha deserta, e caso tal ilha tivesse recém desaparecido do planeta por conta de uma explosão misteriosa, a referida semelhança não chegaria a ser perturbadora por tão longos minutos.

Desta maneira, a sapatão comum estaria livre para ocupar-se apenas de seus afazeres, e seguiria livre a sua vida, sem precisar se ver, vez ou outra, obcecada com o que vem aprontando, para onde está saindo, com quem anda flertando aquele ser maldito que lhe partiu o coraçãozinho.

* * *

Até que, considerando o perfil dos namoros fancha-com-fancha, a ideia da existência dessa ilha não parece assim tão fantasiosa.

Fanchas namoram por anos. Décadas. Bilênios. A paixão acaba, o amor desgasta, mas o medo da ilha está sempre latente, ali, segurando a relação.

Fanchas terminam e sempre voltam atrás em meia hora. Isso não é arrependimento; é o pavor de poder ser despachada para a ilha, a qualquer momento, pela metade mais magoada com o fim daquela história.

Fanchas sempre acabam se assemelhando fisicamente às suas namoradas. Pois, claro, se o relacionamento termina e a ex-namorada A contrata um bote chacoalhante que encaminhe a ex-namorada B para a ilha, vai que na hora do embarque a ex-namorada B consegue jogar a outra dentro? Quero ver quem nota a diferença entre quem foi e quem ficou.

Eu te ligo

Das muitas alegrias que tenho em ser mulher e me relacionar com outras mulheres, bem no topo da lista está a liberdade de poder agir de acordo com minhas vontades e sentimentos. Isso vai para além de fundalmente  ser fiel à minha orientação em termos afetivo-sexuais; significa estar livre de papéis a que ainda se prendem os casais homem-mulher e que, ah, simplesmente me enchem a porra do saco.

 

 Anos 90.

Um tempo sem e-mail, sem Internet, sem celular.

Quantas tardes da minha adolescência perdi, ansiosa, ao lado do telefone, esperando ele ligar.

E nada.

Saía de casa. Na volta: “Tem algum recado pra mim?”.

Não tinha.

Porque no relacionamento homem-mulher o papel do primeiro telefonema é dele, e você senta ao lado do criado-mudo, pernas cruzadas sob as anáguas de seu vestido de época, bordando uma toalhinha em ponto cruz, enquanto, pacientemente, espera.

Caso vocês tenham se conhecido no sábado, antes de quarta-feira esta ligação provavelmente não irá acontecer. Quando ele telefonar, se telefonar, será para sondar sobre o próximo fim de semana. E o novo ”eu te ligo” do rapaz determinará mais uma sessão de chá de cadeira para a mocinha do século dezenove.

 

 Anos 2000.

Entre as mais queridas memórias sobre o dia em que, pela primeira vez, beijei uma garota, está a nossa despedida. No ponto de ônibus, um selinho. E, antes de subir no 432, eu disse:

- Eu te ligo.

 

Desde então, nunca mais bordei em ponto cruz.

LÉS-BI-CA

Uma vez eu estava comentando sobre ser lésbica e…

- Ai, lésbica?! Que palavra horrível!

- Mas é o nome que existe, oras.

- Por que você não usa “gay”? “Gay” também serve para mulheres, não serve?

Pois bem. Servir, até que serve, mas não podemos usar outras palavras por termos medo dos termos corretos!

LÉSBICA. Que nome comprido. Três sílabas. A primeira já vem aguda, chamando a atenção de todo mundo. Léééééésssssss… E termina com um “ca” tão duro, tão seco e incisivo. Lésbica. Sem dúvida, trata-se de uma palavra bem forte.

Já “gay” não. Gay. Gay. “Gay” é uma fofura. Curtinho. Falando baixo, ninguém nem nota. Gay.

Acho que juntando a força da palavra em questão com o “mulher-com-mulher, que nojo, argh!” que aprendemos quando somos crianças, acabamos criando uma resistência e driblando o seu uso da forma que podemos. Somos sapas, sapatilhas, bolachinhas, fanchas, ou até mesmo lés, mas raramente somos lésbicas com todas as letras.

Imagino uma sala de aula, num encontro da Associação 43/44 Pelo Orgulho Lésbico, entidade sem fins lucrativos para levantar a auto-estima das mocinhas. Uma nova turma, acomodada em suas cadeiras, observa a palestrante – de braços cruzados, contra a lousa, em silêncio. Séria. Sapatão. Solteira?! De repente, um tapa firme no quadro-negro. Todas então voltam suas atenções para a palavra LÉSBICA, escrita ali em giz.

- Você!

- Eu?

- É, você mesma! O que veio fazer aqui?

- Ah, ééé que… sei lá, eu soube que ia ser um encontro… de… de meninas… que gostam de meninas…

- E isso não tem nome não?

- É, tem, tem vários… é…

- O que está escrito no quadro?! Lê o que está escrito no quadro!

- Ééééé… l-l-ésbica?!

- Não escutei. O que está escrito aqui?!

- Lésbica…

- Mais alto!

- Lésbica!

- ALTO!

- LÉSBICA!!!

- Muito bem, o que você é?

- Lésbica!

- Todo mundo junto agora!

- LÉSBICA!

- Se você é mulher, e gosta de mulher, então você é…?

- LÉSBICA!

- De novo!

- LÉÉÉÉSSSBIIIICAAA!

- É isso aí.

A fancha inédita (Ou: Carne fresca, parte II)

Pode parecer que não, mas ela existe. Existe sim aquela sapatão que ninguém conhece - nem você, nem suas amigas… ninguém mesmo. E o mais importante de tudo: aquela sapatão que nem você, nem suas amigas, nem ninguém ainda pegou.

Que bênção.

Esta é a verdadeira fancha inédita.

Se você encontrar uma dessas por aí, saiba dar valor. Para todo o resto da sua vida lésbica, este será um dos poucos relacionamentos que você conseguirá iniciar completamente livre de palpites (“A Fafá? Jura que você está saindo com ela? Nossa, a Fafá é ex da Ju… Não sei se ela mudou, mas mesmo namorando sempre dava em cima de todo mundo…” “A Bia é ótima, amiga, pena que a Helena e a Carlinha já disseram que na cama ela é só passiva – acho que não vai bater contigo não.”). Dessa vez também não vai ter que passar por aquele processo desagradável de pedir autorização para a sua melhor amiga para poder ficar com a ex-namorada dela, e não vai precisar ouvir aquele ”Tudo bem, o que importa é vocês serem felizes” que na verdade significa “MORRAM! AS DUAS! LENTAMENTE!”. Mas esteja preparada para a sua melhor amiga pedir autorização para ficar com a sua fancha inédita quando ela já não for mais tão inédita assim.

Agora, a pergunta: como conhecer uma sapa dessas se não será algum conhecido em comum promovendo o encontro?

Não é tão difícil.

 

A FAIXA ETÁRIA

Você, suas amigas, suas ex-namoradas e as ex-namoradas das amigas têm mais ou menos a mesma idade? Então a sua fancha inédita pode estar em uma faixa etária diferente da sua. Você, nos seus 25+, veja o que as mocinhas de 18 anos têm a compartilhar de sua juventude. Ou aprenda através da experiência de uma quarentona. No primeiro caso, ajudá-la a estudar para o Vestibular ou segurar seus cabelos enquanto ela passa mal nos primeiros porres são coisas que podem criar belos vínculos. No segundo, vale um esforço a mais para não sentir ciúme das 4890118723510570 ex-namoradas que ela certamente já terá acumulado ao longo da “carreira”. E, por favor, evite se interessar por uma dessas tantas ex-namoradas. Estamos procurando por ineditismo, lembra-se?

 

A GALERA

Você é do surf, ela é da noite. Você joga futebol, ela tem a turma do RPG. Você desde a adolescência é fã de Black Sabbath; ela gosta mesmo é de um barzinho com MPB. Você faz teatro, ela está no quarto período de Biomedicina e quer estudar os avanços no campo da embriologia a partir da invenç… Bem, você entendeu.

Gostos diferentes, rotinas diferentes. Prepare-se para expandir seus horizontes, ou compre uma agenda e marque os encontros sempre em um campo neutro, em um dia que não haja show daquela cover de Ana Carolina que ela adora e você não compreende o porquê.

 

A NACIONALIDADE

Gringas. Ah, as gringas…

Carne fresca

Curioso boa parte das mulheres lésbicas ser adepta do vegetarianismo – afinal, é notória sua apreciação por carne fresca.

Por carne fresca pode-se dizer aquelas garotas recém-chegadas na área, até então fora do mesmo círculo de amigas, ou as novas fanchas saídas há pouco do armário, ou aquelas meninas que permaneceram encoleiradas por anos e foram enfim devolvidas, livres, ao convívio social. O viciado ar dos ambientes lésbicos, tão carregado de ligações intermináveis entre a mesma meia dúzia de mulheres, assim consegue alguma chance de se renovar.

Não por acaso, cada peça nova no mercado atrai de imediato todas as atenções. Seus passos são farejados por onde quer que ande, aguçando visões e paladares. A gula inspira silenciosos duelos, em que a vantagem é daquelas que conseguem, mesmo torpes, mostrar os reflexos mais ágeis. A rápida elaboração de uma estratégia e o eficaz domínio de armas (de paquera, claro) praticamente determinam quem vence a batalha.

 

FANCHA EM DESVANTAGEM
Avista a carne nova. Cutuca a amiga: “Já viu aquela menina ali? Também não sei quem é… Linda! Será que é ex de alguém? Parece um pouco com aquela menina que a Tatá saiu no ano passado. Ih, nem vem com essa de que olhou primeiro! Eu que coment… Putz, deixa, olha ali, alguém já foi na frente.”

FANCHA EM VANTAGEM
Avista a carne nova. Troca olhares. Sorri. Inspira, para tomar coragem. Anda em direção.

FANCHA CAMPEÃ
Avista a carne nova. Vai ao bar. “Duas cervejas, por favor”.

Tim-tim.

09:30

Se você soubesse como é tão bonita quando acorda
de repente pra sair nem se arrumaria tanto,
e ficaria até feliz que seu cabelo encaracola
se acordasse e visse que já amanhece tão bonita.

Mas você só se conhece depois de tomado o banho
e de secas, uma a uma, cada mecha de cabelo;
quando pinta a pó e tinta e recria a cor e os traços
de um rosto em pedaços de alguém que não se vê.

Sem jeito

Perdi.

Perdi o jeito.

Sempre me julguei bastante desenvolta nessa coisa de dar em cima, de chegar em alguém. Numa mistura de cara-de-pau e simpatia, costumava não ter problemas em conquistar as meninas que me interessavam. Mas um dia eu cansei. Sei lá, deu preguiça de ser sempre a pessoa que ia falar, de ficar elaborando “aquele” discurso infalível. Nesse meio tempo uma ou outra garota chegou em mim, outras vezes foi aquele olhou-sorriu-pegou, mas no fim das contas vi que realmente se não sou eu a fazer o enredo muito dificilmente outra pessoa o fará por mim.

Isso não é um discurso de autopiedade, até porque pra mim nada está mais fora de moda do que falta de amor próprio. Mas realmente sou daquele tipo que ganha pela conversa, pelo bom humor. Em uma pista de dança não serei por quem as menininhas ficarão suspirando. Uma roda de conversa, uma mesa de boteco é que são o meu lugar de agradar.

Pois bem.

A questão é que perdi. Perdi o jeito.

Não sei mais falar. Não tenho mais segurança. Sem prática, enferrujei. Fico tomando coragem, tomando fôlego, tomando cerveja, e quando vejo… Já viu.

 Acabei assim descobrindo o jeito errado de se chegar em alguém na noite:

- Escrever um bilhete: invariavelmente às 3 da manhã, cheia de cachaça nas idéias, aquele garrancho não apenas será incompreensível como ainda uma prova eterna da sua falta de habilidade – e da sua bebedeira;

- Pedir um beijo: beijo não se pede – ou se dá, ou se rouba. Pedir beijo é, na verdade, pedir para NÃO receber um;

- Não chegar: aquele bate-papo de camaradas, aquela conversa sem maldade… situações em que você não deixa claro se quer ou não quer, e a menina acaba querendo… outra.

 

Será que tenho jeito?

A desbravadora

Existe um tipo muito específico de lésbica – a fancha desbravadora. Seu espírito é essencialmente aventureiro, movido a desafios. Costumo dizer inclusive que a fancha desbravadora não gosta de mulher; gosta é de dificuldade.

Para começar, não é nada fácil ser uma mulher que procura outra mulher para se relacionar. Na selva em que vivemos os espécimes se camuflam, e encontrar um amor às vezes torna-se algo até meio desgastante. Afinal, há muitas mocinhas por aí de cabelos curtos só para confundir a gente. Mas para a fancha desbravadora apenas descobrir outras fanchas não é desafio que baste.

O que ela gosta é da adrenalina da conquista. E quanto mais difícil a empreitada, melhor. Sua preferência? Mulheres heterossexuais, claro. A isso se adiciona um ou outro fator complicador: ser a chefe, ou a estagiária; uma prima distante; a ex-namorada de um grande amigo (ou até mesmo a atual); a vizinha mãe solteira.

Alvo escolhido, a desbravadora se arma de suas minuciosas estratégias de conquista. São movimentos quase imperceptíveis, calculados e extremamente precisos, para que se consiga a confiança da presa. No lugar da paquera, a amizade. Mimos, cortejos discretos, dedicação, presença – táticas agressivas disfarçadas de carinho. A paciência é sua principal virtude, e aos seus planos de identificação da vítima, aproximação e captura costuma dedicar um tempo que nenhum outro tipo de sapatão dedicaria. Cada missão pode durar semanas, meses, anos, enquanto a proposta básica da sapata padrão consiste em iniciar qualquer relacionamento em questão de dois minutinhos.

Objetivo alcançado, não raro a fancha desbravadora se desmotiva. A sensação de dever cumprido a faz desejar novas aventuras e conquistas. Mas, para a felicidade das demais sapatões, a fancha desbravadora de tempos em tempos presenteia o mundo com uma lésbica recém-convertida. Então… viva ela!

Sapathus enormyus

Nome popular: Sapatão
Nome científico: Sapathus enormyus

 
Hábitos: essencialmente diurnos.

Habitat: costuma viver entocado. Às vezes identificado em proximidades de lagoas, praias, grandes áreas arborizadas ou montanhas, exercitando-se.

Organização social: em casais. Também encontrado, com menos freqüência, em grandes grupos organizados de seres da mesma espécie.

Acasalamento: imediato, de parceria duradoura. Não resulta em procriação.

Alimentação: Há muitos registros de Sapathus enormyus cuja alimentação baseia-se majoritariamente em vegetais e carboidratos, completando suas necessidades de proteína com derivados de soja diversos.

Sangue: de temperatura elevada, costuma subir à cabeça e causar transtornos de relacionamento com demais seres da mesma espécie.

Aparência: Os espécimes de Sapathus enormyus de mais simples identificação possuem cabelos e unhas bem curtos.

Camuflagem: Há registros de Sapathus enormyus que conseguiram se camuflar com sucesso em sociedade fazendo uso de calçados de salto alto, saias e comprimentos mais longos de cabelo.

Fenômenos da espécie: Da associação de dois Sapathus enormyus diferentes costuma derivar um casal que, após certo tempo de convivência, passa a se assemelhar fisicamente, de maneira natural, mas não menos impressionante.

Alguém te ensinou?

Quando você era pequena e quis trançar a longa crina sintética e colorida do Meu Querido Pônei, alguém foi lá e te ensinou. Sua irmã maior, ou sua mãe, ou sua amiguinha mais velha que morava no 4º andar.

Quando você teve vontade de aprender como se fazia um bolo, a cozinheira que trabalhava na sua casa te ajudou. Mostrou como os ingredientes, cuidadosamente misturados, formavam a massa, e como fazer para aquela massa crescer. Explicou como quebrar os ovos sem estourar a gema, batendo devagarinho a casca na borda da pia, e deixou você escolher o sabor e a fôrma. Mostrou como saber se estava pronto, espetando o palito de dente no meio e vendo se saía úmido ou seco. Até avisou para tomar cuidado para não encostar a mão no forno, para você não se queimar.

Quando você pediu para entrar no time de futebol do condomínio, as outras crianças não deixaram. “Menina não entra”, “aqui não joga café com leite”, “vai brincar de Barbie”. Seu pai um dia descobriu, chegando mais cedo do trabalho, que todas as moedas guardadas por um ano no seu cofre de porquinho tinham virado uma bola de borracha. Era uma daquelas bem vagabundas mesmo, que você chutava descoordenadamente contra a parede do quarto, achando que não havia ninguém em casa. Mesmo preferindo que você fizesse balé ou ginástica olimpica, ele se enterneceu por aquela cena. Te ensinou o domínio da pelota, um ou dois dribles razoáveis, te deu uma camisa do Mengão, e pôs respeito no play.

Mas quando a Daniela resolveu brincar com outra amiguinha na hora do recreio por uma semana, e não mais contigo, e você não conseguia entender por que aquilo te incomodava tanto, a ponto de te fazer chorar de raiva… quem te explicou que eram ciúmes, e que aquela era a sua primeira paixão?

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[ por Mariana Amaral ]

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