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Eu te ligo

Das muitas alegrias que tenho em ser mulher e me relacionar com outras mulheres, bem no topo da lista está a liberdade de poder agir de acordo com minhas vontades e sentimentos. Isso vai para além de fundalmente  ser fiel à minha orientação em termos afetivo-sexuais; significa estar livre de papéis a que ainda se prendem os casais homem-mulher e que, ah, simplesmente me enchem a porra do saco.

 

 Anos 90.

Um tempo sem e-mail, sem Internet, sem celular.

Quantas tardes da minha adolescência perdi, ansiosa, ao lado do telefone, esperando ele ligar.

E nada.

Saía de casa. Na volta: “Tem algum recado pra mim?”.

Não tinha.

Porque no relacionamento homem-mulher o papel do primeiro telefonema é dele, e você senta ao lado do criado-mudo, pernas cruzadas sob as anáguas de seu vestido de época, bordando uma toalhinha em ponto cruz, enquanto, pacientemente, espera.

Caso vocês tenham se conhecido no sábado, antes de quarta-feira esta ligação provavelmente não irá acontecer. Quando ele telefonar, se telefonar, será para sondar sobre o próximo fim de semana. E o novo ”eu te ligo” do rapaz determinará mais uma sessão de chá de cadeira para a mocinha do século dezenove.

 

 Anos 2000.

Entre as mais queridas memórias sobre o dia em que, pela primeira vez, beijei uma garota, está a nossa despedida. No ponto de ônibus, um selinho. E, antes de subir no 432, eu disse:

- Eu te ligo.

 

Desde então, nunca mais bordei em ponto cruz.

Sem jeito

Perdi.

Perdi o jeito.

Sempre me julguei bastante desenvolta nessa coisa de dar em cima, de chegar em alguém. Numa mistura de cara-de-pau e simpatia, costumava não ter problemas em conquistar as meninas que me interessavam. Mas um dia eu cansei. Sei lá, deu preguiça de ser sempre a pessoa que ia falar, de ficar elaborando “aquele” discurso infalível. Nesse meio tempo uma ou outra garota chegou em mim, outras vezes foi aquele olhou-sorriu-pegou, mas no fim das contas vi que realmente se não sou eu a fazer o enredo muito dificilmente outra pessoa o fará por mim.

Isso não é um discurso de autopiedade, até porque pra mim nada está mais fora de moda do que falta de amor próprio. Mas realmente sou daquele tipo que ganha pela conversa, pelo bom humor. Em uma pista de dança não serei por quem as menininhas ficarão suspirando. Uma roda de conversa, uma mesa de boteco é que são o meu lugar de agradar.

Pois bem.

A questão é que perdi. Perdi o jeito.

Não sei mais falar. Não tenho mais segurança. Sem prática, enferrujei. Fico tomando coragem, tomando fôlego, tomando cerveja, e quando vejo… Já viu.

 Acabei assim descobrindo o jeito errado de se chegar em alguém na noite:

- Escrever um bilhete: invariavelmente às 3 da manhã, cheia de cachaça nas idéias, aquele garrancho não apenas será incompreensível como ainda uma prova eterna da sua falta de habilidade – e da sua bebedeira;

- Pedir um beijo: beijo não se pede – ou se dá, ou se rouba. Pedir beijo é, na verdade, pedir para NÃO receber um;

- Não chegar: aquele bate-papo de camaradas, aquela conversa sem maldade… situações em que você não deixa claro se quer ou não quer, e a menina acaba querendo… outra.

 

Será que tenho jeito?

Alguém te ensinou?

Quando você era pequena e quis trançar a longa crina sintética e colorida do Meu Querido Pônei, alguém foi lá e te ensinou. Sua irmã maior, ou sua mãe, ou sua amiguinha mais velha que morava no 4º andar.

Quando você teve vontade de aprender como se fazia um bolo, a cozinheira que trabalhava na sua casa te ajudou. Mostrou como os ingredientes, cuidadosamente misturados, formavam a massa, e como fazer para aquela massa crescer. Explicou como quebrar os ovos sem estourar a gema, batendo devagarinho a casca na borda da pia, e deixou você escolher o sabor e a fôrma. Mostrou como saber se estava pronto, espetando o palito de dente no meio e vendo se saía úmido ou seco. Até avisou para tomar cuidado para não encostar a mão no forno, para você não se queimar.

Quando você pediu para entrar no time de futebol do condomínio, as outras crianças não deixaram. “Menina não entra”, “aqui não joga café com leite”, “vai brincar de Barbie”. Seu pai um dia descobriu, chegando mais cedo do trabalho, que todas as moedas guardadas por um ano no seu cofre de porquinho tinham virado uma bola de borracha. Era uma daquelas bem vagabundas mesmo, que você chutava descoordenadamente contra a parede do quarto, achando que não havia ninguém em casa. Mesmo preferindo que você fizesse balé ou ginástica olimpica, ele se enterneceu por aquela cena. Te ensinou o domínio da pelota, um ou dois dribles razoáveis, te deu uma camisa do Mengão, e pôs respeito no play.

Mas quando a Daniela resolveu brincar com outra amiguinha na hora do recreio por uma semana, e não mais contigo, e você não conseguia entender por que aquilo te incomodava tanto, a ponto de te fazer chorar de raiva… quem te explicou que eram ciúmes, e que aquela era a sua primeira paixão?

A tal pegada

Venho de uma longa carreira heterossexual. Até os 19 anos, das minhas experiências sexuais e afetivas participaram apenas rapazes. Por isso, posso avaliar com certa propriedade como é estar com um ou outro sexo.

Homens, para mim, significam confusão sentimental. Era quase necessário um tradutor para entender o que pensavam, o que sentiam ou o que esperavam do relacionamento. Sentia falta de cuidado e de consideração. Me pareciam autocentrados, egoístas.

Mulheres, não. Mulheres se entendem, ou discutem exaustivamente até conseguir se entender. Mulheres sabem agradar, surpreendem, fazem o que devem e mais além. Mulheres são quase o pacote completo.

Se digo “quase” é porque sinto falta de um pequeno detalhe. Dispenso o pau, os pêlos e a incompreensão masculina. Mas se existe uma coisa que falta às mulheres é a tal da pegada.

Meninas, aprendam a pegar uma mulher de jeito. Espalmar. Encher a mão. A suavidade do toque feminino é realmente uma delícia, e extremamente sensual, mas não há nada como um bom aperto na cintura. E, nisso, (só nisso) os rapazes ainda levam vantagem.


Um blog bem sapatão.

[ por Mariana Amaral ]

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