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A fancha inédita (Ou: Carne fresca, parte II)

Pode parecer que não, mas ela existe. Existe sim aquela sapatão que ninguém conhece - nem você, nem suas amigas… ninguém mesmo. E o mais importante de tudo: aquela sapatão que nem você, nem suas amigas, nem ninguém ainda pegou.

Que bênção.

Esta é a verdadeira fancha inédita.

Se você encontrar uma dessas por aí, saiba dar valor. Para todo o resto da sua vida lésbica, este será um dos poucos relacionamentos que você conseguirá iniciar completamente livre de palpites (“A Fafá? Jura que você está saindo com ela? Nossa, a Fafá é ex da Ju… Não sei se ela mudou, mas mesmo namorando sempre dava em cima de todo mundo…” “A Bia é ótima, amiga, pena que a Helena e a Carlinha já disseram que na cama ela é só passiva – acho que não vai bater contigo não.”). Dessa vez também não vai ter que passar por aquele processo desagradável de pedir autorização para a sua melhor amiga para poder ficar com a ex-namorada dela, e não vai precisar ouvir aquele ”Tudo bem, o que importa é vocês serem felizes” que na verdade significa “MORRAM! AS DUAS! LENTAMENTE!”. Mas esteja preparada para a sua melhor amiga pedir autorização para ficar com a sua fancha inédita quando ela já não for mais tão inédita assim.

Agora, a pergunta: como conhecer uma sapa dessas se não será algum conhecido em comum promovendo o encontro?

Não é tão difícil.

 

A FAIXA ETÁRIA

Você, suas amigas, suas ex-namoradas e as ex-namoradas das amigas têm mais ou menos a mesma idade? Então a sua fancha inédita pode estar em uma faixa etária diferente da sua. Você, nos seus 25+, veja o que as mocinhas de 18 anos têm a compartilhar de sua juventude. Ou aprenda através da experiência de uma quarentona. No primeiro caso, ajudá-la a estudar para o Vestibular ou segurar seus cabelos enquanto ela passa mal nos primeiros porres são coisas que podem criar belos vínculos. No segundo, vale um esforço a mais para não sentir ciúme das 4890118723510570 ex-namoradas que ela certamente já terá acumulado ao longo da “carreira”. E, por favor, evite se interessar por uma dessas tantas ex-namoradas. Estamos procurando por ineditismo, lembra-se?

 

A GALERA

Você é do surf, ela é da noite. Você joga futebol, ela tem a turma do RPG. Você desde a adolescência é fã de Black Sabbath; ela gosta mesmo é de um barzinho com MPB. Você faz teatro, ela está no quarto período de Biomedicina e quer estudar os avanços no campo da embriologia a partir da invenç… Bem, você entendeu.

Gostos diferentes, rotinas diferentes. Prepare-se para expandir seus horizontes, ou compre uma agenda e marque os encontros sempre em um campo neutro, em um dia que não haja show daquela cover de Ana Carolina que ela adora e você não compreende o porquê.

 

A NACIONALIDADE

Gringas. Ah, as gringas…

Carne fresca

Curioso boa parte das mulheres lésbicas ser adepta do vegetarianismo – afinal, é notória sua apreciação por carne fresca.

Por carne fresca pode-se dizer aquelas garotas recém-chegadas na área, até então fora do mesmo círculo de amigas, ou as novas fanchas saídas há pouco do armário, ou aquelas meninas que permaneceram encoleiradas por anos e foram enfim devolvidas, livres, ao convívio social. O viciado ar dos ambientes lésbicos, tão carregado de ligações intermináveis entre a mesma meia dúzia de mulheres, assim consegue alguma chance de se renovar.

Não por acaso, cada peça nova no mercado atrai de imediato todas as atenções. Seus passos são farejados por onde quer que ande, aguçando visões e paladares. A gula inspira silenciosos duelos, em que a vantagem é daquelas que conseguem, mesmo torpes, mostrar os reflexos mais ágeis. A rápida elaboração de uma estratégia e o eficaz domínio de armas (de paquera, claro) praticamente determinam quem vence a batalha.

 

FANCHA EM DESVANTAGEM
Avista a carne nova. Cutuca a amiga: “Já viu aquela menina ali? Também não sei quem é… Linda! Será que é ex de alguém? Parece um pouco com aquela menina que a Tatá saiu no ano passado. Ih, nem vem com essa de que olhou primeiro! Eu que coment… Putz, deixa, olha ali, alguém já foi na frente.”

FANCHA EM VANTAGEM
Avista a carne nova. Troca olhares. Sorri. Inspira, para tomar coragem. Anda em direção.

FANCHA CAMPEÃ
Avista a carne nova. Vai ao bar. “Duas cervejas, por favor”.

Tim-tim.

09:30

Se você soubesse como é tão bonita quando acorda
de repente pra sair nem se arrumaria tanto,
e ficaria até feliz que seu cabelo encaracola
se acordasse e visse que já amanhece tão bonita.

Mas você só se conhece depois de tomado o banho
e de secas, uma a uma, cada mecha de cabelo;
quando pinta a pó e tinta e recria a cor e os traços
de um rosto em pedaços de alguém que não se vê.

A desbravadora

Existe um tipo muito específico de lésbica – a fancha desbravadora. Seu espírito é essencialmente aventureiro, movido a desafios. Costumo dizer inclusive que a fancha desbravadora não gosta de mulher; gosta é de dificuldade.

Para começar, não é nada fácil ser uma mulher que procura outra mulher para se relacionar. Na selva em que vivemos os espécimes se camuflam, e encontrar um amor às vezes torna-se algo até meio desgastante. Afinal, há muitas mocinhas por aí de cabelos curtos só para confundir a gente. Mas para a fancha desbravadora apenas descobrir outras fanchas não é desafio que baste.

O que ela gosta é da adrenalina da conquista. E quanto mais difícil a empreitada, melhor. Sua preferência? Mulheres heterossexuais, claro. A isso se adiciona um ou outro fator complicador: ser a chefe, ou a estagiária; uma prima distante; a ex-namorada de um grande amigo (ou até mesmo a atual); a vizinha mãe solteira.

Alvo escolhido, a desbravadora se arma de suas minuciosas estratégias de conquista. São movimentos quase imperceptíveis, calculados e extremamente precisos, para que se consiga a confiança da presa. No lugar da paquera, a amizade. Mimos, cortejos discretos, dedicação, presença – táticas agressivas disfarçadas de carinho. A paciência é sua principal virtude, e aos seus planos de identificação da vítima, aproximação e captura costuma dedicar um tempo que nenhum outro tipo de sapatão dedicaria. Cada missão pode durar semanas, meses, anos, enquanto a proposta básica da sapata padrão consiste em iniciar qualquer relacionamento em questão de dois minutinhos.

Objetivo alcançado, não raro a fancha desbravadora se desmotiva. A sensação de dever cumprido a faz desejar novas aventuras e conquistas. Mas, para a felicidade das demais sapatões, a fancha desbravadora de tempos em tempos presenteia o mundo com uma lésbica recém-convertida. Então… viva ela!

Sapathus enormyus

Nome popular: Sapatão
Nome científico: Sapathus enormyus

 
Hábitos: essencialmente diurnos.

Habitat: costuma viver entocado. Às vezes identificado em proximidades de lagoas, praias, grandes áreas arborizadas ou montanhas, exercitando-se.

Organização social: em casais. Também encontrado, com menos freqüência, em grandes grupos organizados de seres da mesma espécie.

Acasalamento: imediato, de parceria duradoura. Não resulta em procriação.

Alimentação: Há muitos registros de Sapathus enormyus cuja alimentação baseia-se majoritariamente em vegetais e carboidratos, completando suas necessidades de proteína com derivados de soja diversos.

Sangue: de temperatura elevada, costuma subir à cabeça e causar transtornos de relacionamento com demais seres da mesma espécie.

Aparência: Os espécimes de Sapathus enormyus de mais simples identificação possuem cabelos e unhas bem curtos.

Camuflagem: Há registros de Sapathus enormyus que conseguiram se camuflar com sucesso em sociedade fazendo uso de calçados de salto alto, saias e comprimentos mais longos de cabelo.

Fenômenos da espécie: Da associação de dois Sapathus enormyus diferentes costuma derivar um casal que, após certo tempo de convivência, passa a se assemelhar fisicamente, de maneira natural, mas não menos impressionante.

Pééééinnn péééinnn péééééinnn

Grande noite para você, amiga fancha solteira. É a baladinha lésbica do mês, ninguém fala de outra coisa, a caipirinha é dose dupla, uau-a-lista-tá-bombando.

Três dias antes, você manda o jeans favorito para lavar.

Corta o cabelo na véspera.

Pela manhã, passa um paninho no All Star.

Dá um confere no tamanho das unhas.

É hoje!

No trabalho, entre reuniões, post-its e planilhas de Excel, lembra da amiga da Paulinha, da ex da Fabi, da Gabriela, da Laura, da Taís, da Juju… Dessa vez, todo mundo vai. Por vezes fecha os olhos, respira fundo e sorri, pensando que pode ser, enfim, o seu dia de sorte.

Às sete da noite as amigas já vão ligando. Carona marcada e boteco também, para o famoso “esquenta”. Você sai do escritório, chega em casa, janta, vê a novela, mas, em vez de se arrumar, resolve descansar um pouquinho. Sabe como é, aquela soneca de meia hora para recuperar o pique e poder aproveitar a festa até bem tarde.

A amiga da carona liga para dizer que está saindo de casa, e você não atende.

A amiga da carona liga para avisar que está na porta da sua casa, e você não atende.

A amiga da carona liga para tentar descobrir o que está acontecendo, e você não atende.

A amiga da carona desiste e vai para a festa sem você.

Então a sonequinha de meia hora vira três horas e meia de sono profundo. Quando você finalmente acorda, há muito já passou das doze badaladas. Ainda atordoada, veste qualquer coisa, calça qualquer tênis, mal penteia o cabelo, e sai.

Chegando na boate, enquanto explica o sumiço para as amigas e providencia o primeiro drink, vai tentando localizar seus alvos.

Sim, estão todas as garotas realmente lá. Mas a Paulinha está pegando a tal amiga. A Fabi e a ex estão discutindo o relacionamento aos berros e dando o maior bafão. Gabriela, Laura e Taís deixaram a dose dupla de caipirinha rolar, e acabou rolando a três. E a Juju, coitada, está chorando num canto desde que chegou, e ninguém entendeu ainda o porquê.

Por isso, amiga fancha solteira, anote este conselho: sapatão acompanhada é sapatão pontual! Acontece de um tudo em uma festa lésbica em questão de uma hora - uma hora que, muitas vezes, é até a primeira.

Acerte o alarme e se jogue!

Empadinha com martini

Erro na HP Deskjet sei-lá-o-que C:\whatever.dll – guardo o papel na bolsa, pode servir de rascunho.

No bar, sozinha, observo e escrevo.

A presença feminina deve girar em torno de 20%.

Ok, me traga um folheto do A.A., mas mulher minha tem que saber beber. E tem que beber cerveja. Cerveja mesmo, não chopp, sentada bonitinha numa cadeira daquelas de metal, dobráveis, que preenchem com graça as calçadas de 9 entre 10 esquinas cariocas. Ou numa daquelas plásticas, de bracinho, que parecem uma poltrona.

Mulher minha tem que apreciar um botequim, tem que saber que mais de 3 reais pela garrafa tá ficando caro, tem que ter um garçom amigo em algum estabelecimento. Tem que dar aquele sorriso sincero após o primeiro gole. Tem que preferir Antarctica, ou me apresentar algum argumento muito bom para pedir Skol. Tem que valorizar uma importada de vez em quando.

Tem também que saber quando parar. Tem que entender a necessidade de uma Coca-Cola, quando surja. Tem que entender o timing da turma do bar - ficar mais bêbada do que o resto da mesa costuma tornar a pessoa bastante inconveniente. Tem que saber gerir o próprio porre.

Não confio muito em quem não bebe cerveja. Mulher que não bebe cerveja, pra mim, costuma ser fresca. E não sabe ser feliz.


Um blog bem sapatão.

[ por Mariana Amaral ]

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